Este blog foi montado com o intuito de retratar experiências de professores de SwáSthya Yôga que dedicam suas vidas a praticar, ensinar e difundir esta fantástica filosofia de vida.



quarta-feira, 17 de junho de 2009

O Quanto é Preciso Agradecer





Acabo de ler o livro Quando é Preciso Ser Forte, do DeRose, autor com mais de um milhão  de livros vendidos, Notório Saber em Yôga e profundo conhecedor daquilo que ensina. Enquanto devorava cada uma das páginas, era tomada por lembranças da minha própria vida cuja trajetória, em um determinado momento, cruzou-se com a dele.

A minha história não é cheia de aventuras nem descobertas, nem mudou para sempre o rumo de tantas coisas. Não vivi inúmeras experiências que valessem tantas páginas escritas, nem viajei o mundo como ele o fez e o único homem notável que conheci até hoje foi o próprio DeRose. No entanto, o que escrevo ilustra a abrangência de uma obra que chegou até mim e na vida de milhares de pessoas pelo mundo afora graças ao poder de realização e força de vontade de um único homem.

Tento buscar na memória quando foi a primeira vez que o vi. A sensação é a de que nos conhecemos há muito tempo, mais do que minha idade poderia comportar. Sei que minha mãe abriu o seu primeiro Núcleo de Yôga em 1981, numa pequena cidade de origem italiana, no interior do Rio Grande do Sul, data em que eu contava com cinco anos de idade e minha irmã completava nove aninhos. Éramos pequenas e aquilo tudo que estava acontecendo ao nosso redor foi assimilado como brincadeira de criança: fácil e prazeroso.

Minha mãe, Cleyde, abraçou com entusiasmo aquela filosofia que florescia no início da década de 80, como fruto de um trabalho árduo do DeRose nos 20 anos anteriores. Antes disso, ele vivia apenas no Rio de Janeiro, onde gostaria de ter vivido de forma pacata, acompanhando o nascer e o pôr-do-sol da cidade maravilhosa. Porém, foram tantos os infortúnios que a única forma dele sobreviver ensinando o Yôga Antigo foi expandindo-o para outros Estados do país e, depois, para outros países. Foi nessa guinada que nos conhecemos.

Comecei a ouvir seus ensinamentos a partir de minha mãe que seguidamente, para me contar algo, citava o seu nome. Ela o chamava carinhosamente “De” e assim me referi a ele até entender que o que me ensinava era digno de um grande Mestre.

Entendi, desde cedo, conceitos básicos do Yôga tais como karma, egrégora, chakras, meditação, kundaliní e muitos outros dessa filosofia. Fui crescendo e aprendendo sobre o meu corpo como ninguém nunca havia me ensinado na Escola e aquilo era metabolizado por mim de forma tão biológica que nem percebia o quanto aprendia com isso.

Com seis anos de idade iniciei um Yôga para crianças, adaptado. Hoje é sabido que deve ser praticado somente na idade adulta. Naquele tempo, a garotada freqüentava as aulas. Tenho só boas lembranças da minha professora e do ambiente aconchegante. O Núcleo Vishnu foi instalado no último andar de um prédio no centro de Caxias do Sul, numa rua movimentada, seguindo os mesmos passos do DeRose que abrira sua primeira sala no 33° andar do mais alto edifico de Copacabana da época, idos de 1964. O lugar era inspirador e gostava muito de ficar na frente do fogão à lenha esperando o pinhão cozinhar ou a água chiar para o chimarrão, olhando para as inúmeras janelas que circundavam todo o andar. Lembro até de ir conhecer a sala vazia com a minha mãe, antes mesmo de ela se instalar por lá.

Em um único ambiente ficava a secretaria, o fogão à lenha, uma rede, um tapete no chão e várias almofadas para os alunos ficarem jogados, literalmente. Não é difícil constatar que a decoração era precária e os resquícios dos anos 70s era visível. Na sala de prática, um enorme painel ao fundo com a paisagem de um caminho circundado por árvores outonais (muito parecido com a imagem de capa do livro que me inspirou escrever esse texto); nas paredes laterais, janelas e cortinas; na frente da sala, espelhos e, no chão, um carpete alto, verde, para dar a idéia de que estávamos realmente em meio a um bosque.

Adorava a aula e lembro risonhamente de que como era engraçado e divertido fazer os ásanas, as técnicas corporais do Yôga, em especial o simhásana, que para mim assemelhava-se a fazer caretas. Tenho uma vaga lembrança dos respiratórios e do início da prática. Depois, deitávamos para uma gostosa descontração, cuja vivência nos conduzia a diversas sensações. Minha querida professora, em uma determinada aula, utilizou como metáfora a imagem de uma maçã que saborosamente era degustada por nós. O engraçado é que fui além da imaginação e passei a mastigar, lentamente, o ar!

Acompanhei as mudanças rápidas da Uni-Yôga, organização criada em 1975. Esta instituição passou a congregar dezenas de escolas de Yôga espalhadas pelo Brasil e logo percebeu que as escolas deveriam ser instaladas em casas e não mais em salas comerciais, muito menos em coberturas! Acredito que todos aqueles que contribuíram para que o DeRose desistisse de lecionar ajudaram-no a criar raízes fortes e a mudar o rumo das coisas, sempre que fosse preciso.

Minha mãe tinha fechado o Núcleo no final dos anos 80 porque a visitação era insuficiente para mantê-lo aberto. Em meados dos anos 90 abriu outro espaço, agora numa casa muito bem decorada, na mesma rua em que abrira o anterior, porém em outro bairro. Também lá fiz aulas, agora já adolescente.

Naquele tempo, os cursos de Extensão Universitária para revisão e aprofundamento da matéria eram organizados num final de semana inteiro. Começava sábado pela manhã e terminava na segunda-feira com o Colóquio sobre Formação Profissional. Participei de uma dessas maratonas, por ocasião da vinda do DeRose a Caxias. Sentei numa cadeira mais ao fundo e mergulhei para dentro de cada uma das palavras que ele proferia. A voz era grave, forte e o que dizia era tão claro que a minha atenção não desviava dele em nenhum momento. Foi quando, pela primeira vez, pensei em ensinar o que ele ensinava.

Anos depois, minha irmã Janaína tornou-se também instrutora de SwáSthya e passou a dirigir a Escola que antes havia sido de minha mãe. Hoje, é minha aluna e segue outra profissão.

Passada mais uma década, em 2001, já adulta e morando em Porto Alegre, fui convidada a dirigir uma escola de Yôga, a Unidade Rio Branco, muito pelo incentivo que o DeRose me deu, pois sempre dizia que teria sucesso. Quase não tive obstáculos comparados à história de vida dele. Estudava letras e sonhava em ser escritora. Meu pai me apoiou integralmente e abandonei tudo para me dedicar ao novo trabalho. Ao final do primeiro mês contava com trinta alunos, as despesas pagas e com lucro! Depois de um tempo, compramos a escola e a casa. Estamos em expansão e sinto prazer ao acordar todos os dias e fazer o que mais gosto: ensinar aos outros a serem pessoas melhores, mais conscientes e mais lúcidas.

Em 2005, minha mãe, que foi o primeiro elo com todo esse universo, passou para outros planos. Guardo, com ternura, sua lembrança na minha vida. Ela deixou um nobre legado, uma semente do SwáSthya que ainda germina na minha cidade Natal, a expansão dessa Cultura por mim em Porto Alegre, grandes amizades e um ideal de vida.

Lendo o livro, pude rever o quanto a minha profissão é possível graças trabalho do incansável DeRose. Posso dizer até, sem exageros, mas com uma pontada de tristeza, que a história dele amenizou os infortúnios que eu poderia ter vivido. Por isso, enquanto ele precisou ser forte, eu só preciso agradecer a ele, todos os dias, por ter desbravado o caminho que hoje trilhamos.


Naiana Ramos Alberti


8 comentários:

  1. Qué hermoso, me emocionó mucho.
    Cariños,

    Alejandra
    Sede Decana - Bs. As.

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  2. Obrigado pelas boas sensações que me proporcionaste ao ler teu belo texto.

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Gracias Nai por tus palabras, me encantó leerlas... vos también sos un hermoso ejemplo, un beso grande,
    Pablo - BsAs

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  5. Naiana querida, amei as suas palavras!
    Você teria que construir um livro com textos assim.
    Gosto da forma em que fala.
    Beijinhos da
    Anahí

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  6. Hermoso, y ahora sos profesora de SwáSthya y escritora!

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  7. Lindíssimas palavras, Nai!! Um grande beijo, cheio de carinho e admiração, Gabi

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  8. Nai,


    Viajei dentro da sala c tapete verde!
    Amei!
    Bjão,
    Tina

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