Este blog foi montado com o intuito de retratar experiências de professores de SwáSthya Yôga que dedicam suas vidas a praticar, ensinar e difundir esta fantástica filosofia de vida.



terça-feira, 23 de setembro de 2008

Respire bem!



A respiração é de suma importância para nossa vida. Repare que conseguimos sobreviver algumas semanas sem nos alimentar, mas, só resistimos breves instantes sem respirar. Apesar desta importância vital, a maioria das pessoas não sabe respirar bem!

Nascemos respirando plenamente, porém, a vida sedentária, as emoções pesadas e o stress do dia-a-dia, fazem-nos perder esta capacidade de trazer mais vida para o nosso corpo. Para reverter este quadro, podemos realizar exercícios de reeducação respiratória, que se incorporados ao nosso dia-a-dia, ganhamos mais qualidade de vida.

Primeiramente, conscientize-se de como você respira, se é pelo abdômen ou pela parte alta dos pulmões... Estima-se que a maior parte da população utiliza apenas o ápice dos pulmões o que corresponde apenas a 10% da nossa capacidade respiratória! Entretanto, respirar de forma correta consiste utilizar toda a plenitude pulmonar, parte baixa, média e superior. Desta forma, inspire expandindo o abdômen, depois afaste as costelas e por último leve o tórax para o alto e ao exalar, esvazie primeiro o ápice dos pulmões, logo em seguida, a parte intercostal e finalmente contraia a barriga. Quem tiver dificuldade no início, pode utilizar a respiração baixa que compreende 60% da totalidade dos pulmões. Consiste em ao inspirar descontrair o abdômen e ao expirar, contraí-lo.

Depois de assimilar a respiração ampla e consciente, podemos explorar outros aspectos mais profundos. A forma pela qual respiramos está diretamente relacionada às emoções e a maneira que interagimos com o mundo ao nosso redor. A respiração ampla e lenta está ligada a estados de felicidade, plenitude e realização pessoal, por outro lado, se é caótica e curta, está correlacionada a estados de tensão e ansiedade. É interessante observar que para modificar estes últimos estados emocionais citados, basta mudar a forma de respirar!

Coloque em prática o que foi visto acima, ganhe mais energia e cultive emoções construtivas. Este é um grande passo para profundas transformações na sua vida.


Rafaella Coelho
www.vivaqualidadedevida.org


sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Ferramentas




O ser humano não possui as ferramentas para perceber a realidade em sua totalidade. O que percebemos fica limitado por nossos sentidos, nossa atenção e nossa lucidez entre outros fatores. E também isso passa por alguns filtros como nossa bagagem cultural, nossos pontos de vista, nossos relacionamentos com o mundo e, talvez principalmente, nossa flexibilidade de compreender opiniões e observações de outras pessoas.

Como não temos capacidade de observar o todo, nosso crescimento pessoal pode ser potencializado por um talento em respeitar pessoas que são diferentes de nós. Não quer dizer que vamos facilmente mudar de opinião como alguém sem convicção. Significa que vamos levar em consideração a forma com a qual as pessoas com quem interagimos observam o mundo a sua volta. Isto é estar desperto, é não agir mecanicamente ao nos relacionarmos e nem tentar impor alguma idéia pré-estabelecida antes do encontro.

Antes de aprendermos a usar esta capacidade com o outro devemos treina-la com nós mesmos. Quão a sério levamos nossos sonhos? O quanto valorizamos nossas qualidades? Como encaramos nossos defeitos? Temos que entender que é impossível que todos gostemos das mesmas coisas e que tenhamos as mesmas vontades nas mesmas horas. É bem provável que alguns de meus gostos, não sejam realmente meus e sim de quem me criou ou de quem esteja à minha volta.

É importante que nos conectemos mais a nós mesmos e aprendamos a perceber nossas vontades e intenções de dentro para fora e possamos separar o que realmente queremos. Para isso, passemos mais tempo em nossa própria companhia, sintamos mais nossa respiração, ouçamos nossos batimentos cardíacos.

Nem devemos nos isolar dos demais para isso, basta que nos momentos em que estejamos sozinhos percebamos mais nosso corpo, nossos sentidos, nossas emoções e pensamentos. Depois vamos querer dedicar algumas horas da semana a algo que nos deixe mais próximos de nos mesmos.

Comecemos fazendo aquilo que mais gostamos com mais atenção, carinho e sensibilidade, provando um sorvete atento para todos os sabores, para a textura, para as diferenças de temperatura. E terminemos ficando plenamente mais atentos ao universo infinito em belezas, riquezas e alegrias que existe a nossa volta.

Thiago Duarte
 


sábado, 13 de setembro de 2008

Tempo: amigo ou inimigo?



Tempus são aqueles fragmentos quase tácteis e invisíveis aos olhos, os quais escorrem por entre seus dedos quando se está pensando nele.

Pense e responda rápido: O que você possui de mais precioso e simultaneamente é o seu investimento mais rentável?

Ahá! Tudo isso que pensou ou murmurou são importantes também, mas isso só foi conquistado porque você teve um aliado essencial ao seu lado a todo instante: o nunca nascido e jamais derrotado..tempo! Esse mesmo que agora você dedica à leitura deste artigo e que eu usei descaradamente na execução do mesmo.

Todo (ou quase todo) ser humano tem ciência que, seu grande desafio hoje é saber como administrar o próprio tempo, o qual já lhe parece tão escasso nos dias atuais.

O tempo é um meio contínuo e indefinido no qual os acontecimentos parecem suceder-se em momentos irreversíveis. Momento ou ocasião apropriada para que uma coisa se realize. Essas são duas definições fornecidas pelo “pai” Aurélio e que utilizo no início das minhas palestras sobre aproveitamento do tempo.

Mas como administrar algo invisível, subjetivo e indefinido e, porque alguns conseguem aproveitá-lo mais e outros menos?

Primeiro é preciso ter ciência da magnitude do tema em questão, de nossa vulnerabilidade em sermos sujeitos a sua passagem impiedosa e lúcida.

Embora simples e batido, um bom planejamento das tarefas diárias é um ótimo começo para se dar bom dia ao sábio tempo. Tenho orientado os instrutores que trabalham em minha escola para que estejam diariamente “brifados” por eles próprios. Quando não fazem isso, ficam parecendo àquelas pessoas que chegam pela manhã ao escritório e começam a revirar papéis, mover os objetos de lugar, abrir gavetas, como que a buscar a limpeza da mente para saber por onde irão começar. Minutos preciosos gastos em vão!

Quando aplicamos planejamento e
estratégia aos nossos sonhos,
eles tornam-se metas.
Joris Marengo

Porém, uma ressalva: caso algo não saia como o planejado ou organizado (e isso ocorre com freqüência, pois nem tudo depende só de você) não entre em desespero e/ou saia chutando tudo pra cima. Recorde-se da flexibilidade de pensamento e ação que você deve levar sempre em sua cartola.

Outra atitude bastante interessante é esvaziar a cabeça no que concerne às atividades que devem ser feitas. Frases do tipo: “não posso esquecer”, “tenho que fazer”, martelando no plano mental, farão com que se esqueça de outras coisas, não deixando a mente livre para novos insights. Portanto, elas devem ser passadas para o papel ou para onde quer que seja, deixando-o livre do carregamento daquilo que já foi pensado.

Recentemente foi feita uma pesquisa que apontou que 90% dos pensamentos que povoam nossa mente ao longo de um dia são os mesmos, que vão e voltam com o passar das horas. Preste atenção em não gastar tempo e energia com assuntos que não sejam inerentes a sua atividade presente. Costumo iniciar minhas aulas dizendo para os alunos deixarem todo e qualquer pensamento alheio à prática, da porta pra fora; até porque com o corpo mental descansado é mais fácil que surja alguma solução para essas eventuais preocupações.

Preocupar-se antes é preocupar-se duas vezes.
Emerson Fittipaldi

O homem que consegue fazer do tempo o seu aliado já percorreu uma longa estrada. Para os atentos, a passagem das estações torna-los-ão sábios para perceber dentre outras coisas que para ser feliz com dinheiro, você precisa, em primeiro lugar, não precisar dele.

Isso sem citar o irrecuperável tempo que perdemos nos preocupando com situações que nunca irão ocorrer. Cerca de 30% das fantasias (em todas as áreas) que formulamos e devotamos nossas sinapses, jamais irão acontecer!

Por vezes tentamos distorcer o tempo de acordo com nossas necessidades. É aí que entra a pedante ansiedade. Recordo-me dos quadros que pintava aos 18 anos. Com a pressa natural da idade, não tinha paciência para esperar que as tintas secassem totalmente para recomeçar a pintar. Atropelava tudo e os resultados não eram tão bons quanto deveriam ser. Na vida, de uma forma geral, não é diferente. A ansiedade na tomada de alguma decisão pode vir a estragar todo um trabalho. Porque será que o surrado termo timing deriva da mesma raiz etimológica de tempo? Como diria o filósofo espanhol George Santayana: “Difícil é aquilo que pode ser feito imediatamente, impossível é aquilo que demora um pouco mais”.

Já percebeu quanto tempo desperdiçamos em costumes do cotidiano? Ao checar e-mails, muitas vezes nos deparamos com algum assunto que nos chama a atenção, mas que nada tem a ver com o que estávamos fazendo. Voilà! Perdemos o foco e alguns longos minutos, ou horas em alguns casos.

Quem criou o ditado, “quer algo bem feito, peça a uma pessoa ocupada”, parecia ter consciência do valor do tempo, assim como grande parte dos atarefados o tem. Em contrapartida, aqueles que não possuem muitas atribuições no dia-a-dia, dificilmente percebem a jóia que escorre por suas mãos enquanto não se faz, aprecia ou realiza nada.

Organize-se e aproveitará melhor os segundos que se passam. Lembro-me do meu tempo de empresário, quando trabalhava com meus irmãos. Elucidativa era a quantidade do tempo de trabalho de cada um. Muitas vezes, o que trabalhava menos horas, produzia mais! Planejamento, foco e qualidade do tempo.

Note como é curiosa a expressão “ganhar tempo”, visto que não é possível receber mais minutos do que o outro. No entanto, você realmente deixa de desperdiçá-lo, quando o otimiza. Faça coincidir tarefas, afazeres, horários e locais, tornando prático e eficaz cada passo dado por você.

Fique atento também a não se tornar escravo do tempo. Conheço muita gente que se sente culpada quando usa o fluir do tempo para fazer outra coisa que não seja trabalhar. Sentem-se mal em não produzir. Não se esqueça do ócio criativo de DeMasi; usar o tempo para aliviar a cabeça pode ser fundamental para a execução e criação de idéias.

A valia das horas resume-se clara e tragicamente nas pessoas que estão à beira da morte. Invariavelmente dizem que o que mais desejariam naquele momento seriam uns dias a mais. O velho tempo, que talvez tenha sido negligenciado por elas, agora é quase que com clemência, conclamado a comparecer por mais alguns instantes.

Dizem por aí que tempo é dinheiro. Na verdade, o tempo pode ser o que você quiser que ele seja! Ele (o tempo) saberá reconhecer o seu esforço em utilizá-lo da melhor maneira possível. E, lembre-se: só o tempo é capaz de reconhecer um grande trabalho baseado na mais pura ideologia de existência!


Fábio Euksuzian


sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Unindo trabalho e vida particular em um só rumo



 
 
A relação do trabalho com a vida particular é curiosa. A maioria das pessoas trabalha, tem sua vida pessoal, seus momentos de lazer, tudo isso de forma separada, isolando um momento do outro.

– Agora estou trabalhando.

– Agora vou para casa.

– Agora estou me divertindo.

– Agora vou meditar.

– Agora vou transar.

Um modelo de vida que reúna tudo isso, ao mesmo tempo, no mesmo lugar, com as mesmas pessoas, é o ideal?

É possível manter uma disciplina, um estilo, uma filosofia de vida, um trabalho, que seja doação, realização, prosperidade, felicidade, diversão, tesão, educação, transformação e evolução em um só tempo, em um só espaço?

É possível. Mas para isso temos duas barreiras imensas.

O paradigma... E o medo.

O paradigma é o modelo vigente, é o que todo o mundo faz e é como sempre foi feito. É “estude, tire boas notas, consiga um emprego seguro, garanta uma boa aposentadoria, case-se, tenha filhos, compre sua casa própria financiada, uma casa na praia, se possível, um carro novo, e passe suas noites e fins de semana bebendo e assistindo à televisão.”

Nesse paradigma, é quase inconcebível unir trabalho e prazer. No final do expediente você vai para casa, ver a novela das oito, e se um colega ou o chefe ligar para falar de trabalho, você diz “agora não, estou de folga”.

O medo, por sua vez, decorre do paradigma. “Se todo o mundo faz assim, eu não vou ser diferente”. “É muito arriscado, não é seguro”. O medo em si não é um problema. O medo é o que nos mantêm vivos e faz com que não ultrapassemos nossos limites, não nos joguemos na frente de um carro em alta velocidade para ouvir o barulho da freada. O problema é o excesso de medo, é o medo prévio, o medo como trava à evolução pessoal, profissional, afetiva... enfim, humana.

Chegamos mesmo ao cúmulo de ter medo de sentir medo!

Todos esses medos impedem que pequenas mudanças sejam implementadas em nossas vidas, e o somatório dessas pequenas mudanças poderia transformar a nossa existência, passando de um estado de miséria existencial para outro de graça biológica.

Pequenas mudanças comportamentais diárias produzem um efeito acumulativo muitas vezes imperceptível para quem conosco convive, e geram uma espiral ascendente de evolução e autoconhecimento.

E essas mudanças são possíveis!!! Para cada mudança desejada podemos aplicar determinadas técnicas biológicas que produzem metamorfoses internas muito profundas. Podemos afetar nosso sistema emocional com uma simples respiração profunda. Podemos interceder em nossa estrutura fisiológica realizando certos movimentos e permanecendo neles algum tempo. Podemos ampliar a percepção interna e externa mantendo o foco da atenção em um único pensamento.

Não é incrível que tenhamos guardados em nós mesmos um tesouro que pode mudar nossa própria existência, sem depender de nada nem ninguém? Esse tesouro consiste em uma filosofia antiqüíssima extremamente completa que pode transformar o mundo.

E a partir disso, nosso cotidiano se transforma, de dentro para fora, e o trabalho se torna um prazer, uma ferramenta evolutiva para transformarmos nossa consciência e o universo que nos rodeia.

Enfim, conseguimos unir trabalho, satisfação, realização, alegria, contribuição social, relacionamento afetivo.

Engraçado, se não me engano unir, em sânscrito se diz como mesmo?

Ah, lembrei, uma palavrinha: Yôga.


Rodrigo De Bona


quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Atente-se!




Se for feita uma comparação entre o estilo de vida da sociedade que ocorria há décadas e neste início de século, notaremos uma total mudança de comportamento, principalmente em termos filosóficos. O mundo transformou-se radicalmente em pouco tempo e isso resultou em uma grande mudança de paradigma nas pessoas. Muitas atitudes se tornaram antigas e hoje o que se vê é uma procura incessante por novas formas de relacionamento do indivíduo consigo e com o macrocosmo.

A tecnologia que se desenvolveu com muita força a partir da década de oitenta é a maior responsável pela transformação do mundo. O tempo parece andar com mais velocidade na proporção direta da rapidez com que as informações são recebidas e descartadas. O conceito da informação descartável é o supra-sumo do momento. A informação é conseguida facilmente, usada brevemente e descartada rapidamente. Isso alcançou patamares inimagináveis, com extrema veemência, principalmente na relação entre as pessoas e delas com o mundo.

Paradoxalmente o mundo iniciou a famosa globalização, estreitando barreiras, e por outro lado as pessoas começaram a aumentar seus mundos individuais e, as relações inter-pessoais se resumiram a bate-papos instantâneos pela internet. Assim é o ser humano; quanto mais difícil é conquistar ou ter algo, mais importância se dá a isso e quanto mais fácil, menos. Como hoje o acesso à tecnologia é mais democratizado e mais simples, as pessoas não se atentam à grandiosidade que é o relacionamento entre indivíduos. Como não dispõe de tempo para dedicar-se a todos os compromissos diários, elas preferem mandar um “olá” via bate-papo instantâneo. Não há mais aquela preocupação em encontrar-se pessoalmente e trocar experiências. Alguns adolescentes de hoje namoram on-line, pois para eles é muito mais prático. Quando você se relaciona à distância fica mais simples expressar-se. A falta do contato humano gera pessoas menos preocupadas em lidar com assuntos globais e mais em apontar o nariz para seus próprios problemas.

A partir de experiências pessoais, constatei um detalhe na procura de pessoas interessadas em praticar Yôga, sobretudo na escola onde trabalho; recebemos muitos e-mails de pretendentes a alunos, no entanto, quando convertemos esse e-mail em um atendimento telefônico, o resultado é muito positivo, pois o relacionamento torna-se mais próximo, rápido e eficiente, a pessoa se sente mais confortável e segura em dedicar um momento do seu dia para visitar a escola e iniciar as suas práticas. E o mais curioso é que estas pessoas, mesmo dizendo não ter tempo para nada, ao conhecerem pessoalmente o espaço, passam a encontrar ‘buracos’ em suas agendas. Perceba a importância de vivenciar, estar presente e trocar experiências. São as próprias pessoas que fazem do seu tempo as suas prioridades. Quando dizemos que não temos tempo para algo, estamos dizendo que não estamos interessados e que não o priorizamos naquele momento.

Imagine uma situação na qual você escreve e-mails simultaneamente a conversação com amigos por mensagens instantâneas: onde está colocando sua atenção? No e-mail ou na conversação? Acredito que em nenhum dos dois, pois perde-se mais tempo mudando o foco a todo momento do que prestar atenção em cada situação separadamente.

O Yôga assim nos ensina a ter foco e saber usar o tempo a nosso favor, no entanto, o mais importante é que ele nos ensina a vivenciar cada momento e experiência. Percebe-se a riqueza em cada momento da vida quando se está atento, consciente e presente.
 

 
Tati Marcondes 


quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Poemas





Esta série de poemas sintetiza com especial sensibilidade uma das particularidades do SwáSthya: o fato de ser uma filosofia que se transmite como uma arte.

A autora expressa com talento um universo de experiências e vivências surgidas da dinâmica interna que é própria de uma SwáSthya yôginí. Poemas para ler e se deliciar com instantes de delicado prazer.

Edgardo Caramella
Supervisionado pelo DeRose
Mestre de SwáSthya Yôga
Presidente da União Internacional de Yôga, Filial Argentina




Fora do tempo
(A DeRose)

Eu te compreendo,
mas
sempre chego tarde
no momento
em que deveria
ter-te entendido
para poder afirmar
que te compreendo. 
Karma

De um instante só
germinam
ilimitadas portas.
Catástrofe da indecisão.
Aquela que serei
daqui a um segundo
depende da porta que eu abra agora.
Sabedoria da incerteza.
Inspiro e vejo
batalhões de possíveis futuros
que desfilam perante meus olhos.
Expiro
e abraço com todas minhas forças
um único
momento
presente. 


Anahí Flores
 



terça-feira, 26 de agosto de 2008

O que nos espera após a Era da Informação?




Em 1956, o sociólogo americano Daniel Bell detectou que naquele ano, nos Estados Unidos, o número de trabalhadores chamados de colarinhos-brancos havia ultrapassado o de operários. Ao perceber esse fato tão relevante advertiu: “Que poder operário que nada! A sociedade caminha em direção à predominância do setor de serviços.” Por isso, este ano é considerado por muitos estudiosos o início da Era da Informação. Peter Drucker, renomado consultor de empresas e autor de dezenas de livros sobre o tema, foi o primeiro a denominar assim o período histórico que vivemos até hoje. Mas Drucker acreditava que a Era da Informação tinha começado pelo menos 10 anos antes, com a atitude dos soldados americanos de, após voltar da II Guerra Mundial exigirem, ao invés de um emprego, colocações em universidades. Hoje isso pode parecer óbvio, mas na época foi marcante, visto que aqueles que voltaram da I Guerra aspiravam apenas um emprego estável. Por volta de 1945, o conhecimento estava começando a ser mais valorizado do que o trabalho manual.

Em 1980, Alvin Toffler, um dos mais influentes futurólogos do mundo, escreveu um livro denominado A terceira onda. A idéia central era que a humanidade havia passado por três movimentos de grandes transformações. A primeira onda – com o desenvolvimento da agricultura - a segunda onda - com a Era Industrial - e estava passando por uma terceira onda que ele chamou de Era do Conhecimento.

Toffler explica que, devido ao aumento na velocidade das mudanças, a tendência é que cada Era seja mais transformadora e também mais curta que a anterior. Considerando que o primeiro representante do Homo sapiens sapiens, o homem de Cro-Magnon, tinha aproximadamente 35.000 anos de existência e que a agricultura só foi descoberta há 12.000 atrás, permanecemos 23000 anos como caçadores e coletores na Idade da Pedra. Já a Era Agrícola durou menos da metade desse tempo, 11000 anos, e foi deixada para trás, com o início da produção Industrial, na segunda metade do século XVIII. Não obstante, o período em que a geração de riquezas veio prioritariamente da produção nas fábricas perdurou por apenas 200 anos abrindo espaço para a Era da Informação iniciada entre as décadas de 40 e 50 do século XX.

A primeira Era durou 23000 anos. A segunda 11000. A terceira 200.
Quanto tempo resistirá a Era da Informação? E qual será a próxima?

Todas essas grandes transformações são reflexos de vontades e desejos das pessoas. Somando-se estes anseios de cada indivíduo, criam-se as mudanças comportamentais, que fazem com que uma Era termine e dê início a uma outra. O início da Era Industrial, por exemplo, aconteceu num momento em que o homem começou a sentir necessidade de utilizar roupas mais confortáveis. Os ingleses foram os primeiros a perceberem isto e a ter infra-estrutura para produzir grandes fábricas de tear e distribuir seus produtos pelo mundo todo. Sabendo que são as vontades humanas que movem os mercados e geram essas grandes tendências, se cruzarmos a pesquisa do psicólogo Abraham Maslow sobre as necessidades humanas com as Eras de Toffler talvez tenhamos uma pista de para onde estamos indo.

A Pré-História

Quando a última Era Glacial, há 20.000 anos, nos tirou do nosso habitat natural que eram as árvores e caímos nesse território desconhecido chamado chão, nossa maior batalha era para mantermo-nos vivos. Éramos apenas alguns milhares de homo sapiens lutando pela sobrevivência. A caça se fazia necessária, pois nossa alimentação dependia diretamente do que conseguíamos caçar ou coletar. Tal como na escala das necessidades humanas de Maslow vivíamos o drama da primeira e mais básica das necessidades: as fisiológicas.


A Era Agrícola

Foi provavelmente uma mulher quem, há 12.000 anos, descobriu que se enterrássemos uma semente no solo, geraríamos frutos e comida sem necessidade de tanto esforço como acontecia com a caça. Desenvolvemos então a agricultura e, conseqüentemente, ampliamos nossa expectativa de vida. Afinal, a caça é uma atividade deveras arriscada, e ameaça até mesmo a vida do caçador mais experiente. Com aquela descoberta simples, mas revolucionária, a aldeã, havia suprido a segunda necessidade de Maslow: a de segurança.


A Era Industrial

A industrialização começou a aparecer no chamado século das luzes, o XVIII, e essa revolução surge de uma mistura de cientificismo, racionalismo e ironia. Vivíamos um momento de progressos em quase todos os campos científicos - na física, na filosofia, na biologia - e nas artes principalmente na música, período em que estiveram vivos ao mesmo tempo, Mozart, Beethoven e Haydn.

O desejo das pessoas era ganhar mais autonomia através do trabalho que gerasse riquezas, podendo assim suprir suas necessidades mais básicas. Tal como as demais Eras, a Industrial respeita a ordem das necessidades humanas do estudo de Maslow. Esta foi a primeira época em que tivemos a necessidade de trabalharmos em grandes grupos. O êxodo rural fez com que mais e mais pessoas se congregassem nas cidades. A massificação dos produtos e a produção em larga escala reforçavam a tendência da terceira das necessidades segundo Maslow: o agrupamento.

Essa Era, que se inicia timidamente na segunda metade do século XVIII e chega ao ápice por volta de 1850, pode realmente ser chamada de um período revolucionário já que nesta época a Inglaterra começa a produzir e exportar em grande quantidade diversos tipos de tecidos. Somente nessa década é que as pessoas se deram conta que toda a sociedade havia mudado. Nascia a Era Industrial.


A Era da Informação

Assim como aconteceu com a Era Industrial, em que somente depois de um século de existência é que as pessoas acordaram para as modificações que haviam acontecido no mundo, o mesmo vem acontecendo agora. Apesar de já estarmos há mais de 50 anos vivendo um novo paradigma social, a maior parte das pessoas não percebem isso e ainda mantém suas crenças alicerçadas no sistema antigo.

A Era da Informação está sendo mais do que uma mudança social. Ela é uma mudança na condição humana. Na nossa época, quantidade de esforço não significa mais resultado. Mãos calejadas não são mais sinônimo de trabalho honesto. Será a capacidade criativa e pensante, que sempre nos diferenciou dos demais animais, que determinará o sucesso das pessoas na economia mundial.

Para se ter uma idéia do delay na leitura dos acontecimentos globais, apesar do sucesso mundial de livros que tratam do assunto como O mundo é plano de Thomas Friedman e de muitos intelectuais colocarem a boca no trombone para falar disso, ao consultar a Wikipédia para obter informações para este artigo, me assustei ao me deparar com um texto de apenas três frases e ainda totalmente equivocadas a respeito da Era da Informação. Agora o que consta lá é contribuição nossa.

A característica da Era da Informação que mais salta aos olhos é que ela tem deixado de lado o mercado de massas para focar no indivíduo. A indústria e os serviços saíram da massificação para a customização, transferindo cada vez mais poder à individualidade. O valor de cada pessoa tem crescido muito nestes últimos anos. Hoje podemos acessar o site da Nike e montarmos nosso próprio tênis. Outro exemplo curioso é o filme Homem-Aranha que, ao ser exibido na Índia, teve o nome do herói trocado de Peter Parker para Pavitr Prabhakar (!), se passa em Mumbai ao invés de Nova York e o personagem não adquiriu seus poderes através da irradiação, mas por um ritual feito por um yôgin paranormal. Ou seja, personalizar para valorizar o indivíduo.

E isso bate mais uma vez com a teoria de Maslow, cujo estágio contempla a estima de cada pessoa.


O que teremos pela frente?

Todo período de transição de uma Era para outra gera atritos. Isso aconteceu com os primeiros agricultores que, tornando-se mais sedentários pela praticidade do cultivo da terra, reduziram seu espírito bélico e sofreram muitos saques dos povos mais bárbaros e menos desenvolvidos que ainda viviam da caça e da coleta. Mas foi somente com a expansão da agricultura para todos os povos que, uma vez estáveis em um único lugar, os homens conseguiram multiplicar a riqueza. A transição da Era Agrícola para a Industrial também gerou embates como a Guerra Civil dos Estados Unidos (1861-1865) na qual o sul mais conservador e voltado para a agricultura confrontou o norte sedento pela industrialização. A Era da Informação também sofre com a insistência em se manter paradigmas antigos. Observamos isto, por exemplo, na Indústria do petróleo que mantém um constante lobby para que sistemas mais inteligentes de energia não se propaguem no mundo. A sorte que temos é que o máximo que essas resistências farão é gerar atraso no processo, jamais detê-lo.

Podemos também prever que a Era da Informação criará empecilhos para que a próxima se sedimente. Provavelmente ela não aceitará que as pessoas possam viver com menos informações, que possam abrir mão de inovações tecnológicas e não aceitar que tudo o que é novo “eu preciso”.

Seguindo a linha de raciocínio, observamos que depois que o homem se alimenta e está saudável, ele busca segurança, uma vez seguro, sente a necessidade de fazer parte de algum grupo, posteriormente quer se destacar nesse grupo, e após ter preenchido todas essas necessidades, vai atrás da mais sofisticada das necessidades: sua auto descoberta, o imprescindível autoconhecimento que lhe possibilitara a plena realização pessoal.

Esse movimento já vem acontecendo em nossa sociedade. Hoje as pessoas têm valorizado mais a ética. Patrícia Aburdene, autora do livro Megatrends 2010, que aborda uma pesquisa sobre tendências do século XXI, conclui “ Surgindo das cinzas da crise, corrupção e desconfiança pública, ganha atração de milhões num movimento totalmente novo que visa revitalizar a ética e o espírito da livre iniciativa". Jovens escolhem seus trabalhos levando mais em conta a satisfação do que o ganho monetário.

Exploramos todas os cantos dos planeta, visitamos a Lua e agora, por meio de aparelhos, estamos futricando Marte. Contradissemos Demócrito (460 a.C. - 370 a.C.) e estudamos partículas menores que os átomos. Enfim, viajamos do infinitesimal ao infinito, sempre focados no que estava fora de nós mesmos. É compreensível que após essa imensa expansão façamos um movimento retrátil e comecemos a explorar o conhecimento que os indianos sempre viram como o mais importante - aquele que nos permita ser quem realmente somos, desatando as amarras de uma cultura que determina nossas ações e vontades para descobrirmos o que realmente nos agrada. Enfim, um conhecimento que proporcione felicidade acima de tudo.

Está chegando o momento de darmos o último passo na escada de Maslow, alcançar seu ápice, que por ser o último degrau, também será o mais difícil e talvez o mais duradouro. O que está por vir é mais profundo que as pesquisas tecnológicas de ponta, é mais sofisticado que os ultra-modernos aparelhos da NASA. O que temos para desvendar na próxima Era, tal como nos indica esse longo caminho que o homo sapiens sapiens vem percorrendo há pelo menos 35000 anos é que chegou a vez de preencher a última das necessidades de Maslow: o AUTOCONHECIMENTO.


Daniel De Nardi